Nanopartículas: O que são, propriedades, síntese e aplicações

Materiais avançados que impulsionam saúde, energia, sensores, catálise e tecnologias emergentes.

Se você está iniciando na área ou deseja entender o contexto maior por trás das nanopartículas, recomendamos explorar também o nosso Guia de Nanotecnologia, que apresenta os princípios que dão origem às propriedades únicas dos nanomateriais.

1. O que são nanopartículas?

Nanopartículas (NPs) são materiais com dimensões típicas entre 1 e 100 nm, faixa na qual propriedades químicas, ópticas, elétricas e mecânicas passam a se comportar de forma única.

Essa escala é crítica porque:

1.1 Relação superfície-volume extremamente elevada

Grande parte dos átomos está exposta, aumentando:

  • reatividade química
  • capacidade de adsorção
  • interação com moléculas biológicas

1.2 Efeitos quânticos

O confinamento eletrônico altera:

  • cor
  • luminescência
  • condutividade
  • bandgap

1.3 Propriedades emergentes

Materiais comuns podem exibir:

  • magnetismo alterado (NPs de ferro)
  • respostas fotocatalíticas (TiO₂)
  • ação bactericida (AgNPs, CuNPs)
  • superelasticidade e dureza (nanocerâmicas)

Essas características tornam as nanopartículas essenciais em biotecnologia, energia, sensores, catálise, cosméticos e eletrônica de alta performance.

2. Principais tipos de nanopartículas

2.1 Nanopartículas metálicas (Au, Ag, Cu, Zn, Pt, Fe)

Nanopartículas metálicas exibem propriedades ópticas e químicas altamente dependentes do tamanho.

Propriedades principais:

  • Plasmons de superfície (Au, Ag) → colorações intensas, sensores, fototermia
  • Atividade bactericida (Ag, Cu, Zn) → ruptura de membranas e geração de ROS
  • Catálise heterogênea (Pt, Pd, Ni) → redução e oxidação aceleradas
  • Magnetismo (Fe, Fe₃O₄) → hipertermia, MRI, separação magnética

Aplicações:

  • biossensores, teste rápido, nanossondas
  • revestimentos antimicrobianos
  • fototermia em tumores
  • catalisadores energéticos

2.2 Nanopartículas cerâmicas (TiO₂, ZnO, Al₂O₃, SiO₂)

Materiais cerâmicos nanoestruturados são estáveis, resistentes e altamente funcionais.

Propriedades:

  • fotocatálise (TiO₂)
  • absorção UV (ZnO → fotoproteção)
  • estabilidade térmica
  • superfície altamente funcionalizável

Aplicações:

  • despoluição e purificação ambiental
  • filtros solares avançados
  • sensores de gases
  • cosméticos e aditivos industriais

2.3 Nanopartículas magnéticas (Fe₃O₄, γ-Fe₂O₃)

Possuem comportamento superparamagnético, sem magnetização residual.

Aplicações:

  • MRI como agentes de contraste
  • Hipertermia magnética para tumores
  • Separação magnética de proteínas/células
  • Entrega dirigida (drug delivery guiado)

2.4 Nanopartículas poliméricas (PLA, PLGA, PEG, quitosana)

Biocompatíveis e biodegradáveis, amplamente aplicadas em nanotecnologia farmacêutica.

Aplicações:

  • liberação controlada de fármacos
  • transporte de DNA/RNA
  • encapsulamento de moléculas hidrofóbicas
  • engenharia tecidual

2.5 Nanopartículas híbridas / core–shell

Combinação de dois materiais formando núcleo + casca.

Exemplos:

  • SiO₂@Au
  • Fe₃O₄@TiO₂
  • Polímero@metal

Vantagens:

  • multifuncionalidade (óptica + magnética)
  • maior estabilidade coloidal
  • controle preciso de liberação e interação

2.6 Quantum Dots (Pontos Quânticos / QDs)

Quantum dots são nanocristais semicondutores com tamanho típico entre 2 e 10 nm, nos quais a energia dos elétrons é quantizada, produzindo emissão de luz altamente controlada.

Principais materiais usados em quantum dots

  • CdSe, CdTe, CdS (tradicionais)
  • InP/ZnS (versão cadmium-free, menos tóxica)
  • Perovskitas nanoestruturadas (CsPbBr₃, CsPbI₃)
  • Carbon quantum dots (CQDs) — alternativa ecológica

Propriedades fundamentais

  • Emissão ajustável pelo tamanho da partícula: (QDs menores → energia maior → cor azul; QDs maiores → vermelho)
  • Alta fotoluminescência (PLQY): Até 90–95% dependendo do passivation shell.
  • Estabilidade contra fotodegradação: Melhor que corantes orgânicos tradicionais.
  • Possibilidade de funcionalização química: Permite conjugação com biomoléculas.

Aplicações

🔬 Bioimagem fluorescente
📺 Displays e TVs QLED
☀️ Células solares de perovskita e QDs
🧬 Rastreamento celular e molecular
🧪 Sensores de íons e pH
🔦 LEDs e lasers nanométricos

Quantum dots representam um dos campos mais promissores de nanofotônica e eletrônica avançada.

Tabela Comparativa de Nanopartículas

Comparação objetiva entre os principais tipos de nanopartículas

Tipo de Nanopartícula Material Típico Tamanho (nm) Propriedades Principais
Metálicas Au, Ag, Cu, Pt 5–80 Plasmons, alta reatividade, condutividade
Cerâmicas TiO₂, ZnO, SiO₂ 5–100 Fotocatálise, estabilidade térmica, superfície funcionalizável
Magnéticas Fe₃O₄, γ-Fe₂O₃ 10–80 Superpara-magnetica, resposta a campo magnético
Poliméricas PLGA, PLA, PEG 50–200 Biodegradáveis, controláveis
Híbridas (Core–Shell) SiO₂@Au, Fe₃O₄@TiO₂ 20–200 Multi-funcionalidade
Quantum Dots CdSe, InP, CQDs, perovskitas 2–10 Emissão controlada, alta PL
Nanocarbonos rGO, GO, CNTs 1–1000 Condução elétrica, mecânica excepcional

 

 

Tipo de Nanopartícula Vantagens Desafios / Limitações Aplicações
Metálicas Ação bactericida; sensores; catálise Agregação; toxicidade em alguns metais Biossensores, anti-microbianos, catálise
Cerâmicas Baratas, resistentes, não tóxicas (SiO₂) Dispersão às vezes difícil Cosméticos, purificação ambiental
Magnéticas MRI, hipertermia, separação Oxidação; necessidade de revestimento Medicina, separação magnética
Poliméricas Liberação controlada; bio-compatibilidade Baixa estabilidade térmica Farmacêutica, biomateriais
Híbridas (Core–Shell) Estabilidade; combinação de propriedades Síntese mais complexa Catálise, fototermia, sensores
Quantum Dots Bioimagem, QLED, fotônica Toxicidade (Cd), estabilidade ambiental Display, sensores, optoeletrônica
Nanocarbonos Grande área superficial; funcionalização Agregação, purificação Energia, sensores, compósitos

 

3. Propriedades físico-químicas das nanopartículas

3.1 Tamanho e distribuição (DLS, TEM)

Tamanho controla:

  • reatividade
  • difusão
  • absorção celular
  • cor (AuNPs mudam de vermelho → azul com agregação)

DLS → tamanho hidrodinâmico
TEM → tamanho real, forma, agregação

3.2 Potencial zeta (ζ) — estabilidade coloidal

Indica repulsão eletrostática.

  • |ζ| > 30 mV → boa estabilidade
  • ζ próximo de 0 → agregação

Fundamental para dispersões aquosas e formulações.

3.3 Área superficial específica

Determina:

  • velocidade de reações
  • eficiência catalítica
  • adsorção de contaminantes

Método: BET (Brunauer–Emmett–Teller).

3.4 Propriedades ópticas

UV-Vis, fotoluminescência, Raman permitem avaliar:

  • plasmons metálicos
  • banda proibida
  • grupos funcionais
  • estabilidade

3.5 Propriedades magnéticas

Fe₃O₄ apresenta:

  • superparamagnetismo abaixo de ~150 nm
  • resposta instantânea ao campo externo
  • ausência de histerese → ideal para MRI

4. Aplicações das nanopartículas

4.1 Biomedicina

  • liberação controlada
  • nanoantibióticos
  • antivirais
  • hipertermia
  • imagem molecular

Nanopartículas podem atravessar barreiras biológicas e interagir com proteínas, permitindo terapias mais precisas.

4.2 Meio ambiente

  • remoção de metais pesados (Pb²⁺, Hg²⁺, Cd²⁺)
  • degradação de pesticidas
  • fotocatálise de poluentes
  • purificação de água

TiO₂ e ZnO são líderes em fotocatálise ambiental.

4.3 Energia

  • eletrocatalisadores para hidrogênio verde
  • baterias de íons-lítio
  • supercapacitores
  • células solares nanoestruturadas

Nanopartículas aumentam eficiência e reduzem perdas energéticas.

4.4 Indústria e materiais avançados

  • tintas e revestimentos funcionais
  • aditivos para polímeros
  • sensores de gases e biomoléculas
  • produtos antimicrobianos

5. Métodos de síntese

5.1 Métodos físicos

  • moagem de alta energia
  • evaporação-condensação
  • laser ablation

Vantagens: pureza, ausência de solventes
Desvantagens: controle limitado de forma

5.2 Métodos químicos

  • redução química (citratização de AuNPs)
  • sol-gel
  • co-precipitação (Fe₃O₄)
  • hidrotermal / solvotermal

Vantagens: controle de tamanho, forma e funcionalização
Desvantagem: uso de reagentes redutores

5.3 Métodos biológicos ("green synthesis")

  • extratos vegetais
  • enzimas
  • microrganismos

Abordagem sustentável, especialmente útil para aplicações biomédicas.

6. Técnicas de caracterização

Principais métodos:

  • TEM / SEM — morfologia, tamanho e forma
  • UV-Vis — plasmons, agregação, estabilidade
  • Raman — estrutura vibracional
  • FTIR — grupos funcionais
  • DLS / PDI — tamanho hidrodinâmico e dispersão
  • Zeta — carga superficial
  • XRD — cristalinidade
  • ICP-MS / ICP-OES — composição metálica
  • VSM / SQUID — propriedades magnéticas
  • TGA / DSC — estabilidade térmica

7. Segurança, toxicologia e boas práticas

Toxicidade depende de:

  • tamanho
  • formato
  • dose
  • funcionalização
  • pureza
  • estabilidade

Boas práticas de manipulação:

  • uso de máscara PFF2
  • capela ou cabine para nanopartículas em pó
  • evitar aerossóis
  • descarte químico adequado
  • nunca pipetar partículas secas

8. Conclusão

Nanopartículas representam uma das tecnologias mais versáteis da ciência moderna. Sua elevada área superficial, propriedades quânticas e capacidade de funcionalização tornam essas estruturas essenciais em saúde, ambiente, energia, catálise e novas tecnologias.

Com o avanço da nanotecnologia, novas gerações de nanopartículas híbridas, biocompatíveis e multifuncionais devem impulsionar terapias personalizadas, sensores inteligentes, eletrônica flexível e processos industriais mais eficientes.

9. FAQ — Nanopartículas | Perguntas Frequentes

O que determina a toxicidade de uma nanopartícula?

Tamanho, forma, carga superficial, pureza, estabilidade e dose de exposição.

Como medir o tamanho de nanopartículas?

As técnicas mais comuns são TEM (tamanho real), DLS (tamanho hidrodinâmico) e SAXS.

Nanopartículas são seguras?

Sim, quando produzidas com controle de pureza e usadas sob condições adequadas, seguindo normas de biossegurança. A segurança das nanopartículas depende do tipo de material, tamanho, forma, superfície, pureza e dose de exposição. Em geral, nanopartículas bem caracterizadas e usadas dentro de limites controlados são consideradas seguras para pesquisa e aplicações industriais.

Como evitar agregação de nanopartículas?

Ajustando pH, aumentando |zeta|, usando dispersantes e evitando eletrólitos em excesso.

Para que servem nanopartículas magnéticas?

São usadas em hipertermia, MRI, separação magnética e entrega dirigida de fármacos.

Quais são as vantagens das nanopartículas?

Nanopartículas oferecem alta reatividade, grande área superficial, propriedades quânticas únicas e capacidade de atravessar barreiras biológicas. Essas características permitem maior eficiência em catálise, entrega de fármacos, sensores, fotocatálise e materiais avançados.

Como fazer nanopartículas?

Nanopartículas podem ser produzidas por métodos químicos (redução, sol-gel, co-precipitação), físicos (moagem, evaporação-condensação) ou biológicos (extratos vegetais, enzimas e microrganismos). O método escolhido determina o tamanho, forma e funcionalização das partículas.

Quais os tipos de nanopartículas?

Os principais tipos incluem nanopartículas metálicas (Au, Ag, Cu), cerâmicas (TiO₂, ZnO), magnéticas (Fe₃O₄), poliméricas, híbridas core–shell, quantum dots e nanocarbonos como grafeno e nanotubos. Cada categoria possui propriedades específicas e aplicações distintas.

Quais são os pontos negativos da nanotecnologia?

Os principais desafios envolvem toxicidade potencial, dificuldade de controle de dispersão, bioacumulação e riscos ocupacionais se manipuladas sem proteção. Também há preocupações ambientais relacionadas ao descarte inadequado de nanomateriais.

O que são nanopartículas?

Nanopartículas são materiais com dimensões entre 1 e 100 nm, nos quais propriedades químicas, ópticas e eletrônicas mudam devido ao confinamento quântico e à elevada área superficial. Elas apresentam comportamento único comparado ao mesmo material na escala macro.

Nanopartículas e nanorrobôs são a mesma coisa?

Não. A maioria dos “nanorrobôs” mostrados na mídia ainda é experimental. Atualmente, nanopartículas são usadas para terapia fototérmica, entrega de fármacos e hipertermia magnética, mecanismos capazes de destruir células tumorais de forma controlada — mas não atuam como robôs autônomos.

Para que servem as nanopartículas de prata?

Nanopartículas de prata possuem forte ação antimicrobiana e são usadas em revestimentos bactericidas, têxteis, cateteres, curativos, cosméticos e sensores. Elas atuam rompendo membranas celulares e gerando espécies reativas de oxigênio.

Qual a cor das nanopartículas de ouro?

A cor varia conforme o tamanho e a dispersão:

  • ~20 nm → vermelho rubi
  • Agregadas → azul-arroxeado
  • Maiores (~80 nm) → púrpura a castanho

Isso ocorre devido ao fenômeno de ressonância plasmônica de superfície

Quais os riscos da nanotecnologia para o ser humano?

Os principais riscos envolvem:

  • inalação de partículas ultrafinas
  • acúmulo em órgãos dependendo da biopersitência
  • geração de radicais livres
  • interações imprevistas com proteínas e membranas

Com manuseio adequado em capelas e EPIs, o risco é reduzido.

10. Leituras recomendadas

Se você chegou até aqui e gostou do tema, reunimos a seguir uma seleção de artigos desenvolvidos pelo Mercado da Ciência que aprofundam os fundamentos, materiais e aplicações da nanotecnologia, ampliando a compreensão tanto conceitual quanto prática do assunto.

➡️ Nanotecnologia: Guia Completo - Materiais avançados, aplicações, propriedades, tendências globais e muito mais.

➡️ Nanopartículas: O que são, propriedades, síntese e aplicações - Materiais avançados que impulsionam saúde, energia, sensores, catálise e tecnologias emergentes.

➡️ Grafeno, Óxido de Grafeno e Óxido de Grafeno Reduzido - Fundamentos científicos, propriedades comparativas e aplicações emergentes.

 

11. Nanomateriais disponíveis no Mercado da Ciência

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